14-X: o ambicioso projeto de míssil hipersônico que pode colocar o Brasil na elite militar

26 de março de 2026 • Por Dimas

BRASÍLIA — A retomada de investimentos em projetos estratégicos de Defesa e a entrega do primeiro caça F-39 Gripen produzido no Brasil reacenderam o interesse em uma das iniciativas mais ambiciosas da Força Aérea Brasileira: o desenvolvimento do veículo hipersônico experimental conhecido como 14-X.

O projeto busca posicionar o Brasil entre os poucos países capazes de dominar tecnologias de voo em velocidades extremas, superiores a Mach 5 — mais de cinco vezes a velocidade do som, estimada em cerca de 1.235 km/h ao nível do mar.

Enquanto o regime supersônico compreende velocidades entre Mach 1 e Mach 5, o hipersônico ultrapassa esse limite e pode atingir até Mach 10, o equivalente a aproximadamente 12 mil km/h. Nessa faixa, os desafios tecnológicos se intensificam: o ar ao redor da aeronave sofre ionização devido às temperaturas elevadas geradas pela compressão, podendo ultrapassar 1.000 °C, além da formação de ondas de choque intensas.

Motor de combustão supersônica

Para operar nesse ambiente extremo, o 14-X utiliza um motor do tipo scramjet (Supersonic Combustion Ramjet), capaz de realizar combustão com fluxo de ar em velocidade supersônica. Diferentemente dos foguetes convencionais, esse tipo de propulsor utiliza o oxigênio da atmosfera, reduzindo a necessidade de oxidantes embarcados e aumentando a eficiência do sistema.

O desenvolvimento do motor integra o programa PropHiper, conduzido pelo Instituto de Estudos Avançados em parceria com o Instituto de Aeronáutica e Espaço, além das empresas brasileiras Mac Jee e Orbital Engenharia, com financiamento da Financiadora de Estudos e Projetos.

O investimento já ultrapassa R$ 93 milhões, um dos maiores aportes em pesquisa de Defesa no país.

Plataforma de lançamento e testes

O sistema de lançamento, denominado RATO-14X, possui cerca de 14 metros de comprimento e massa aproximada de 15 toneladas, sendo projetado para atingir velocidades entre Mach 8 e Mach 10.

Em 2021, durante a chamada “Operação Cruzeiro”, realizada no Centro de Lançamento de Alcântara, o demonstrador do 14-X foi testado em condições reais. O veículo foi levado a cerca de 30 km de altitude por um foguete acelerador para avaliação do motor scramjet.

O ensaio atingiu Mach 6 (cerca de 7.350 km/h), com apogeu de 160 km e alcance total de aproximadamente 200 km. Após o teste, o lançador caiu no Oceano Atlântico.

Segundo a FAB, o experimento marcou a entrada do Brasil no seleto grupo de nações com capacidade de projetar, construir e testar sistemas hipersônicos aspirados.

Etapas do programa

O desenvolvimento do 14-X está estruturado em quatro fases dentro do PropHiper. A primeira etapa, concluída em 2021, validou o funcionamento do scramjet em voo.

As fases seguintes incluem testes de estabilidade aerodinâmica, resistência térmica dos materiais e integração dos sistemas de navegação e propulsão. A etapa mais avançada prevê um voo completo com todos os sistemas operando de forma integrada.

Até 2025, o programa concentrou-se na validação de subsistemas e em simulações em solo e túneis de vento. Para 2026, a expectativa é avançar para a integração dos demonstradores. Já o primeiro voo completo está previsto para 2027.

Corrida tecnológica global

Atualmente, apenas um grupo restrito de países domina tecnologias hipersônicas. A Rússia é considerada a mais avançada, com sistemas como o Kinzhal, Avangard e Zircon em operação.

A China desenvolveu o DF-17, equipado com veículo planador hipersônico, enquanto os Estados Unidos investem em programas como ARRW, HAWC e LRHW.

Fora desse grupo, países como a Índia também conduzem projetos experimentais, como o HSTDV, semelhante ao esforço brasileiro.

Perspectivas

Ainda em fase experimental, o 14-X não possui aplicação operacional definida nem integração com sistemas de armas. No entanto, seu desenvolvimento é estratégico tanto para usos militares quanto civis, incluindo acesso ao espaço.

Se bem-sucedido, o projeto poderá colocar o Brasil na vanguarda da tecnologia hipersônica até a próxima década, consolidando a Base Industrial de Defesa e ampliando a autonomia tecnológica do país.


 

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