BRICS reforça agenda de pagamentos digitais e amplia debate sobre desdolarização


BRICS reforça agenda de pagamentos digitais e amplia debate sobre desdolarização
A criação de um sistema de pagamentos próprio voltou ao centro da agenda do BRICS e deve ganhar impulso em 2026, sob a presidência da Índia. A proposta, que prevê a integração de moedas digitais emitidas por bancos centrais, é tratada como um dos principais eixos estratégicos do bloco para os próximos anos.
Durante a última cúpula, o Reserve Bank of India defendeu a criação de um mecanismo conjunto de pagamentos que opere com moedas digitais soberanas — as chamadas CBDCs. A expectativa é que o tema seja aprofundado na 18ª reunião de líderes, quando o país asiático sediará o encontro.
De acordo com análise do Asia Times, a proposta indica uma mudança de abordagem: em vez de uma moeda única, considerada politicamente e tecnicamente mais complexa, o foco recai sobre a construção de uma rede interoperável entre sistemas nacionais.
Prioridade estratégica desde 2025
O avanço do tema não é recente. Na Declaração de líderes assinada durante os encontros realizados no Rio de Janeiro em 2025, o desenvolvimento de um sistema de pagamentos transfronteiriços foi classificado como “prioridade estratégica”.
Na ocasião, os países destacaram o progresso da Força-Tarefa de Pagamentos do bloco, encarregada de estudar caminhos para ampliar a interoperabilidade entre sistemas financeiros. O grupo reúne autoridades monetárias e busca soluções que permitam liquidações diretas entre países, sem dependência de intermediários externos.
Comércio em moedas locais cresce, mas enfrenta limites
O esforço ocorre em paralelo ao aumento do uso de moedas locais no comércio entre os membros. Estimativas indicam que até 65% das transações dentro do BRICS já são realizadas sem o dólar. Entre China e Índia, esse percentual chega a cerca de 80%.
Apesar disso, entraves persistem. Segundo análises do conselho de especialistas do BRICS na Rússia, a maioria das moedas do bloco ainda apresenta baixa liquidez internacional, com exceção do yuan. Além disso, os sistemas de liquidação seguem, em grande medida, integrados à infraestrutura financeira ocidental.
Inspiração no PIX e experiências internacionais
Um dos modelos que inspiram o projeto é o PIX, conhecido pela rapidez e baixo custo nas transferências. A ideia é adaptar esse conceito para operações internacionais, permitindo transações diretas entre países.
No cenário global, iniciativas semelhantes avançam. A China participa do desenvolvimento do mBridge, projeto apoiado pelo Banco de Compensações Internacionais que busca facilitar liquidações entre bancos centrais.
O yuan digital (e-CNY) já movimentou trilhões de dólares em transações, segundo dados do Atlantic Council, reforçando o papel crescente das moedas digitais na economia global.
Entre integração e autonomia
A proposta do BRICS prevê um sistema no qual moedas digitais nacionais possam ser utilizadas diretamente em transações internacionais, em operações “par a par”. Na prática, isso reduziria custos, aumentaria a eficiência e ampliaria a autonomia financeira dos países do bloco.
Embora frequentemente associado à chamada desdolarização, o projeto é visto como um movimento gradual de diversificação. Ao fortalecer moedas nacionais e criar alternativas aos sistemas tradicionais, o BRICS busca reduzir sua exposição a estruturas dominadas por economias desenvolvidas.
Com países que juntos representam cerca de 30% do comércio global, o avanço de um sistema de pagamentos próprio pode ter impactos relevantes na arquitetura financeira internacional — ainda que, no curto prazo, o dólar mantenha sua posição dominante.
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