Demanda por fertilizantes deve recuar em 2026 sob pressão de preços e cenário externo adverso

13 de abril de 2026 • Por Dimas

Após uma sequência de anos de crescimento, o consumo de fertilizantes no Brasil tende a perder fôlego em 2026, em meio à combinação de custos elevados, restrições de crédito no campo e incertezas no cenário internacional. A avaliação consta de relatório do Rabobank, que projeta retração na demanda após o pico registrado no ano anterior.

De acordo com a instituição, o consumo deve alcançar cerca de 47,2 milhões de toneladas em 2026, abaixo das aproximadamente 49 milhões de toneladas contabilizadas em 2025. O recuo interromperia uma trajetória de expansão sustentada, mesmo diante de condições financeiras adversas enfrentadas por produtores rurais nas últimas safras.

O relatório aponta que, apesar das dificuldades, os agricultores mantiveram níveis elevados de investimento em 2025, impulsionando entregas acima das expectativas. Para a safra 2025/26, no entanto, dados preliminares indicam persistência das limitações de crédito, o que tende a restringir a capacidade de compra de insumos.

No plano externo, o Oriente Médio surge como fator adicional de pressão. O conflito na região tem afetado diretamente o mercado global de fertilizantes, com impactos mais intensos sobre a ureia, produto-chave para a agricultura brasileira. Segundo o banco, a instabilidade tem elevado preços e introduzido novos riscos às cadeias de suprimento.

A dependência externa amplia a vulnerabilidade do país. Atualmente, cerca de 90% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados. Embora a participação do Oriente Médio venha diminuindo, a região ainda responde por parcela relevante das compras — cerca de 12% do total. No caso específico da ureia, a dependência é mais significativa: 36% das importações em 2025 tiveram origem na região, ainda que abaixo dos 53% registrados em 2021.

Outro fator de risco apontado pelo relatório é a concentração das importações ao longo do calendário agrícola. Historicamente, cerca de 70% da ureia chega ao país entre maio e dezembro. Esse padrão pode mitigar impactos apenas em cenários de interrupções pontuais, o que, segundo o Rabobank, não se configura no atual contexto de instabilidade prolongada.

Com isso, o Brasil pode enfrentar maior concorrência internacional pelos volumes disponíveis, pressionando ainda mais os preços. Os sinais já são visíveis no início de 2026: entre a primeira semana de janeiro e 19 de março, as cotações da ureia nos portos brasileiros registraram alta de aproximadamente 76%.

Nesse ambiente, a combinação entre custos elevados e restrição de crédito tende a impor ajustes no uso de insumos, com reflexos diretos sobre a demanda agregada e, potencialmente, sobre a produtividade agrícola nas próximas safras.

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