Mercado de petróleo em rutura: AIE prevê conflito prolongado e preços voláteis

14 de abril de 2026 • Por Dimas

A Agência Internacional de Energia alertou para um cenário sem precedentes no mercado energético global, classificando a atual crise como a maior perturbação já registada no abastecimento de petróleo. A escalada do conflito envolvendo o Irão e os Estados Unidos está a provocar um choque profundo na oferta, com impactos já visíveis nos preços e na procura mundial.

De acordo com o mais recente relatório mensal da agência, divulgado esta terça-feira, o bloqueio das rotas marítimas no Estreito de Ormuz reduziu drasticamente os fluxos de petróleo. Os carregamentos caíram de cerca de 20 milhões de barris por dia, em fevereiro, para apenas 3,8 milhões no início de abril — uma quebra que está a pressionar fortemente os mercados internacionais.

O impacto foi imediato nos preços. O crude físico do Mar do Norte atingiu os 130 dólares por barril, enquanto contratos futuros como o Brent crude e o West Texas Intermediate permanecem entre 96 e 98 dólares. No entanto, a AIE destaca que o mercado físico apresenta um aperto extremo, com cargas imediatas a serem negociadas até 30 dólares acima dos índices de referência.

Apesar do anúncio de um cessar-fogo temporário entre os EUA e o Irão, a incerteza continua elevada. A agência considera imprevisível a evolução do conflito e alerta que, sem um acordo duradouro, o mundo poderá enfrentar um período prolongado de instabilidade energética. A ameaça de novas sanções e restrições a navios ligados ao Irão agrava ainda mais o risco de disrupção.

Produção em queda e impacto na OPEP+

Os efeitos da crise já se refletem na produção dos países da OPEP+, que registou uma queda acentuada. Em março, a oferta total do grupo recuou 9,4 milhões de barris por dia face ao mês anterior.

A Arábia Saudita, maior produtor do grupo, viu a sua produção cair significativamente, enquanto o Iraque sofreu uma das maiores perdas, reduzindo quase dois terços da sua capacidade. Países como o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos também enfrentaram quedas relevantes.

Embora algumas rotas alternativas tenham sido utilizadas — incluindo exportações pela costa oeste saudita e via Turquia — estas soluções não conseguiram compensar o défice global.

Destruição da procura e impacto económico

A escassez de petróleo está a provocar um fenómeno conhecido como “destruição da procura”. Segundo a AIE, o consumo global já caiu mais de 2,3 milhões de barris por dia em abril, afetando sobretudo os setores petroquímico e da aviação.

Na Ásia, indústrias petroquímicas reduziram operações por falta de matéria-prima, enquanto o cancelamento de voos na Europa e na Ásia levou a uma forte queda no consumo de combustível de aviação.

As refinarias, mesmo fora das zonas de conflito, enfrentam custos recorde. Em centros como Singapura, os preços dos destilados médios ultrapassaram os 290 dólares por barril, refletindo a escassez extrema de produtos refinados.

Reservas sob pressão

Para mitigar os efeitos da crise, vários países estão a recorrer às suas reservas estratégicas. Ainda assim, os níveis globais caíram 85 milhões de barris em março, evidenciando um desequilíbrio preocupante.

Enquanto países importadores asiáticos registaram quedas acentuadas nos seus stocks, parte das reservas permanece inacessível no Médio Oriente ou armazenada em navios, devido às restrições logísticas impostas pelo conflito.

Perspetivas incertas

A Agência Internacional de Energia conclui que, sem uma solução diplomática, o cenário mais provável é o de um conflito prolongado, com impactos ainda mais severos na segunda metade de 2026.

Num contexto de elevada volatilidade, o mercado energético global entra assim numa fase crítica, em que a segurança do abastecimento e a estabilidade económica estão cada vez mais interligadas.

Mais notícias