Após quase 2 anos,Copom corta juros e Selic cai 0,25 ponto, para 14,75% ao ano

18 de março de 2026 • Por Dimas

Copom inicia ciclo de flexibilização e reduz Selic para 14,75% ao ano em meio a incertezas externas

BRASÍLIA – O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil, decidiu nesta quarta-feira, 18, iniciar um novo ciclo de flexibilização monetária ao reduzir a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto porcentual, de 15,00% para 14,75% ao ano. A decisão foi unânime e marca a primeira queda dos juros desde maio de 2024, quando o colegiado promoveu o último ajuste antes de um longo período de aperto monetário.

A medida já era amplamente precificada pelos agentes financeiros, embora persistissem dúvidas quanto à magnitude do corte diante do ambiente internacional adverso, especialmente após a escalada do conflito envolvendo o Irã e seus desdobramentos sobre o mercado global de energia. A recente volatilidade nos preços do petróleo elevou o grau de incerteza inflacionária, fator central na condução da política monetária.

Em comunicado, o Copom destacou que a decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta ao longo do horizonte relevante, mas evitou sinalizações mais claras sobre os próximos passos. O colegiado reforçou que a condução da política monetária seguirá dependente de dados (data dependent), incorporando novas informações sobre o cenário externo e doméstico.

“O Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os próximos passos possam refletir com maior precisão os impactos diretos e indiretos do cenário internacional sobre a dinâmica inflacionária”, informou o Banco Central.

Ciclo anterior e transmissão da política monetária

Antes do corte desta quarta-feira, a Selic permaneceu estacionada em 15% ao ano desde junho de 2025, após um ciclo de alta acumulado de 4,50 pontos porcentuais iniciado em setembro de 2024. Esse movimento foi o segundo mais intenso das últimas duas décadas, ficando atrás apenas do aperto registrado entre 2021 e 2022, no contexto pós-pandemia.

Segundo o Copom, a manutenção prolongada dos juros em patamar contracionista produziu efeitos concretos sobre a atividade econômica, evidenciados pela desaceleração de indicadores de consumo, crédito e investimento. Esse processo de transmissão da política monetária abriu espaço para o início de um ajuste gradual na taxa básica.

“O período de juros elevados contribuiu para moderar a demanda agregada, criando condições para uma recalibragem do grau de restrição monetária”, destacou o comitê.

Ambiente internacional pressiona decisões

No cenário externo, o aumento das tensões geopolíticas no Oriente Médio segue como principal vetor de risco. O Copom ressaltou que acompanha os efeitos prospectivos desses conflitos, sobretudo sobre cadeias globais de suprimentos e preços de commodities energéticas, com impacto direto sobre a inflação doméstica.

No mesmo dia, o Federal Reserve presidente da instituição, Jerome Powell, indicou que o cenário ainda exige cautela, não descartando novas elevações caso as pressões inflacionárias persistam.

A manutenção dos juros elevados nas economias centrais tende a restringir o espaço para cortes mais agressivos no Brasil, ao influenciar o fluxo de capitais e a taxa de câmbio, variáveis-chave para a inflação.

Juros reais ainda elevados

Mesmo com a redução, o Brasil permanece entre as economias com maior taxa de juros reais do mundo. Considerando a inflação projetada, a taxa real brasileira está em 9,51%, atrás apenas da Turquia, segundo levantamento de mercado. O patamar segue significativamente acima da estimativa de juro neutro do Banco Central, calculado em torno de 5% ao ano.

Esse diferencial indica que a política monetária ainda opera em terreno contracionista, com o objetivo de assegurar a convergência da inflação à meta estabelecida.

Cenário doméstico: desaceleração e expectativas desancoradas

Internamente, o Copom avaliou que a atividade econômica apresenta sinais consistentes de desaceleração, conforme esperado após o ciclo de aperto monetário. No entanto, o ambiente segue desafiador, com expectativas de inflação desancoradas e mercado de trabalho ainda pressionado.

Os dados mais recentes mostram algum alívio na inflação cheia e em seus núcleos, mas os índices permanecem acima do centro da meta, fixado em 3%. Esse descompasso exige cautela adicional na condução dos juros.

Além disso, o comitê reiterou que acompanha atentamente os desdobramentos da política fiscal, destacando que eventuais deteriorações no cenário das contas públicas podem afetar os preços de ativos e as expectativas inflacionárias.

Projeções e modelo de referência

O Copom revisou levemente suas projeções de inflação no cenário de referência. Para o horizonte relevante — terceiro trimestre de 2027 — a estimativa passou de 3,2% para 3,3%, ainda acima do centro da meta. Para 2026, a projeção subiu de 3,4% para 3,9%, refletindo pressões mais persistentes, especialmente em preços administrados.

As estimativas consideram a trajetória da Selic implícita no relatório Focus, câmbio em torno de R$ 5,20 e evolução dos preços do petróleo conforme a curva futura, com crescimento posterior de 2% ao ano. Também está incorporada a hipótese de bandeira tarifária amarela no setor elétrico.

Segundo o Banco Central, o cenário indica que a trajetória de juros esperada pelo mercado ainda pode ser insuficiente para garantir a convergência plena da inflação à meta no horizonte relevante, o que reforça a necessidade de uma condução prudente da política monetária.

Próximos passos em aberto

Diante do quadro de elevada incerteza — tanto no ambiente internacional quanto doméstico — o Copom optou por não fornecer orientação futura (forward guidance), mantendo em aberto o ritmo e a extensão do ciclo de cortes.

A autoridade monetária sinaliza que novas decisões dependerão da evolução dos indicadores de inflação, atividade econômica, expectativas e, sobretudo, dos desdobramentos geopolíticos.

O início do ciclo de queda, ainda que gradual, representa uma inflexão importante após um dos períodos mais prolongados de juros elevados no País, mas a trajetória à frente permanece condicionada a um cenário global instável e a desafios internos persistentes.

Mais notícias